Fim de semana no Mãos ao Auto! Eu, o velho, e o gerador da Brasília

A tarde de inverno anunciava o fim do expediente. Preguiçosamente Tião começa a fechar sua oficina de reparos elétricos automotivos. Era assim que gostava de ser conhecido por seus clientes: como técnico de eletricidade automotiva. Se alguém o chamasse de mecânico respondia na lata:

 –Mecânico não!!!!! Eletricista rapaz!!! – Tenho estudo meu!!

Considerava os mecânicos como uma categoria abaixo da sua:

–São uns ignorantes……. Eu fiz a faculdade da vida e me formei!! – Dizia

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Ao por a mão na grade quase foi atropelado por uma Brasília verde que chegava empurrada por dois jovens voluntários e dirigida por um senhor que não cansado, mas nervoso.

–Cheguei na hora certa!! Disse

“Na hora de fechar” pensou Tião que era um amante da elétrica, mas não um tarado por ela a ponto de trocar seu descanso por um serviço de última hora.

–O senhor, por favor, não faça isto – disse o condutor da Brasília, vendo na fisionomia amarga do eletricista a vontade raivosa de fechar a oficina – o senhor me foi muito bem indicado e preciso dos seus serviços!! Acertara na mosca.

Tião não recusava um agrado no ego.. Um sorriso orgulhoso foi o sinal para que aquele senhor se apresentasse.

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–Me chamo José e sei que o senhor é o famoso Tião!! – disse continuando com seu elogio interessado em mais alguns minutos dos serviços do profissional.E agradecendo o esforço dos jovens benfeitores deu o bote final transformando sua fisionomia em alguém que estava em apuros e somente seu alvo, o eletricista, seria o salvador da situação.

–A bateria do carro foi ficando fraca até que nem rodar o motor quis mais – dizia querendo mostrar conhecimento – Deve ser algum fio solto…

Tião, oficial experiente, percebendo logo o defeito disse:

–Seu gerador pifou. Só tirando o dito cujo para consertar… E vai demorar…. – falou isso dando de ombros  entrando também na guerra psicológica.

–Leve em conta minha situação – retruca o freguês – e não se aproveite dela somente por causa da hora e da idade do carro… –concluiu, pisando numa terra perigosa.

Tião volta de dentro da oficina agora com a cara de poucos amigos e algumas ferramentas nas mãos. Se coloca de frente ao motor e antes que o cuspe atinja o chão, e resmunga:

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–A chuva molha quem tá nela…

Cerca de vinte minutos depois o objeto em questão já se encontrava na bancada e aberto como um paciente na mesa de cirurgia. Naquela altura o eletricista estava completamente absorto no seu trabalho quando teve sua atenção chamada por um estranho barulho. Era como se esfregassem uma pedra em outra e provocava gastura mesmo que por uma fração de segundos,o tempo que demorara. Tomou um susto quando percebeu o freguês literalmente nas suas costas. Fungava no seu pescoço e ai percebeu que o barulho vinha de sua boca. Aos poucos, Tião se deu conta que o que parecia ser pedras era a dentadura. E como irritava aquele ranger.

Era impressionante como aquela situação conseguia tirar totalmente a concentração que se poderia ter no serviço. O profissional experiente ficara sem ação. O freguês ainda era um observador chato e a posição, quase uma intimidade. Um calor no cangote piorava mais a resenha inesperada. Quando já pensava numa oração silenciosa, se lamentando como céus, algo a antecedeu.

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Um estrondo, agora vindo do telhado interrompe a comédia. Era pesado e caíra no zinco que cobria a oficina, exatamente em cima do local onde os dois estavam. E o dono do velho carro, assustado, se assenta levando a mão no peito, algo mais defensivo do que real. Um silencio e alívio para Tião que agora afastara de vez a ideia de cortar o pé de manga que ocupava o espaço de dois automóveis. Por fim , recuperara a concentração, passando os próximos minutos compenetrado no serviço; com um olho nele e outro no seu José. Quando tudo parecia tranqüilo, e no tempo de uma piscadela, o homem sumira da vista. Mais uma piscada e uma voz se fez seguida do bafo no cangote:

–Achei que fosse um tiro… – disse como que também retornando ao serviço e completou:  –Já pensou… Um assalto agora?

Antes que a gota d’água fosse a última, Tião põe a peça debaixo do braço e como num chamado urgente que chegou disse:

–Preciso dar uma saída rápida seu José!!

A voz saíra com um sorriso e os olhos soltavam raios em direção ao rosto como procurando a dentadura.

–Mas como?? – perguntou o atônito aposentado – Aonde você vai? O que faço se aparecer alguém?

–O senhor atende – disse dentro do carro já em movimento.

Tião acelera e chega à casa de sua mãe. Entra e vai direto ao quarto dos fundos, a sua primeira oficina. Era como pedir ajuda aos pais num momento difícil. Uma respirada funda e em pouco tempo a tranquilidade do ambiente faz retornar a capacidade profissional do herói. Pra quem sabe o conserto é rápido e quarenta minutos foi o tempo de ausência da oficina. A distância de ida e de volta mais o reparo do gerador.

Na volta encontrou o freguês sentado de braços cruzados e cara ruim. Orgulhoso Tião entra com a peça levantada para o alto como um troféu

–Tá pronto!! – A voz sai como uma comemoração – Mais dez minutos e nós vamos pra casa….

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Dava até para pensar na cerveja gelada e o tira gosto gorduroso feito pela mulher que sempre fechava a cara, mas cozinhava bem, um dos laços do casamento. Serviço pronto,carro funcionando e os faróis brilhando atestando a saúde da parte elétrica da Brasília,mudam as feições de seu José que tenta ser amável já pensando no desconto.

–Profissional é profissional – disse a Tião, comerciante experiente, mas pouco impressionado.

Feito o acerto, acontece o contrário da chegada. Agora temos um eletricista feliz, limpando as mãos numa estopa e dizendo:

–Volte sempre seu José!!

Este, cabisbaixo, resmunga – Já vou tarde – pensando em mudar o caminho que faz todo dia.

O sorriso de Tião desaparece quando uma Kombi mais velha que sua prima entra na oficina. O dono põe a grande cabeça para fora e diz:

–Que bom que o senhor faz plantão! – disse o velho para um Tião agora calejado na resenha.

–O bairro tava precisando disso, de bons profissionais – completou numa conversa já não tão estranha.

O eletricista olha para o freguês e pensa numa frase do avô,” faz hora extra no inferno? abraça o chefe e dando “duas tapinhas” no pé de manga guardou o dinheiro do cliente anterior já o empurrando no fundo do bolso, pensando no vintém do próximo.

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