Os alemães ficaram mais atrevidos. Ensaiam um pouco da coragem perdida pelo seu passado recente através de críticas e ironias a outros povos e suas mazelas. Até aí tudo bem. Afinal eles perderam uma guerra em nome da liberdade de expressão, da livre escolha de muitos comportamentos humanos.

Mas como deixar de reparar uma ironia alemã sobre nós, brasileiros? Certa ou não (e ela é certa), a mágoa acontece mesmo entre aqueles que concordam afirmando: “Esta é a nossa imagem lá fora!”  “Vejam o que fizemos com nosso país!”  Ou será que não ficou com uma ponta de raiva, senhor formador de frases feitas? “Falem mal de mim, mas falem de mim”, também é uma frase feita, tosca, que esconde mágoas até na entonação.

Pois em Frankfurt, no dia do último salão internacional do automóvel, em alguma praça desconhecida por mim e muitos, alguém desenhou um mural retratando o Brasil e suas mazelas. Além do resultado famoso de 7 a 1, colocaram brasileiros vendendo armas e drogas servidas em bandejas  na praia. Até o tatu, símbolo da copa, virou ladrão,  sendo retratado assaltando um gringo na praia.

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Tudo bem que nós não somos o estado islâmico para reagir contra tais caricaturas. Ainda mais quando elas exageram (e caricaturas são isso: o real exagerado para chamar atenção) a realidade que ocorre em nosso país. Mas qual criatura humana que não gosta de uma vingancinha? Talvez uma tapa de luvas de pelica, que é outra frase feita significando o óbvio: revidar com elegância algo que você não gostou de ouvir a seu respeito ou de alguém que faz parte de nossa família.

Especial de fim de semana. Caso Volkswagen. Pau que dá em Chico, dá em Fritz!

Tudo bem, não vamos exagerar. Esqueçam a elegância e vamos rir um pouco dos alemães.

Não é que a famosa e irrepreensível Volkswagen, indústria alemã e orgulho desta nação desde a época pré-guerra, “deu pra trás” e se invejou da fama conquistada por outra super indústria tupiniquim e se enrolou toda em um escândalo com gosto de chucrute azedo?

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Entenda o caso.

Basicamente foi isso que aconteceu: a fábrica, no seu desejo de avançar gananciosamente no mercado, cometeu a fraude conhecida como “falsificação de resultados de emissões de poluentes”. Como isso ocorreu? Em 2009, a Volks lançou um sistema antipoluente para atender a novas regras contra poluição que o governo americano criou. Eram bem mais rígidas.

Dizendo atender a lei, milhares de carros a diesel foram vendidos nos EUA equipados com este novo acessório que emitia baixos índices de poluentes.  E foi toda esta aparente eficiência alemã que chamou a atenção de especialistas que resolveram estudar o mecanismo para exaltá-lo como exemplo a ser seguido. Foi aí que o negócio cheirou mal.

As medidas não batiam. Os veículos da Volks exalavam poluentes acima da lei. Mas com assim? Não deveria ser rígida a fiscalização de gases poluentes de veículos? Pois bem, nos Estados unidos é.

As autoridades americanas descobriram um software instalado nos carros que enganava a todos somente na hora da fiscalização dos órgãos competentes. Naquele momento o mecanismo fazia o motor emitir poluentes dentro dos padrões exigidos usando de tática inteligente, ou esperta. Na rua, em condições normais de rodagem, os carros da Volks poluíam com força.

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Quem dera um carro de hoje, da fábrica alemã, fosse tão sincero quanto a Kombi acima…

Pau que dá em Chico, dá em Fritz…

De um dia para o outro a fábrica alemã jogou o seu nome na lama. Mas levou junto o tal mural de Munique? Não. A verdade jamais é derrubada depois de exposta, mesmo que o mural seja retirado por um motivo qualquer. Fortes imagens sobre nós brasileiros ficaram gravadas em muitas mentes. Se uma mentira contada muitas vezes ganha o poder mágico de se transformar em uma verdade, quanto mais a verdade, que ganha a forma de um ferro em brasa marcando profundamente o pensamentos de muitos.

Mas, mesmo com o vexame alemão, eles ainda conseguem dar uma aula de cidadania em nós. Com este acontecimento, que se espalhou por partes do mundo onde um carro desses foi produzido, diretores renunciaram, engenheiros e intermediários da alta cúpula foram demitidos. Além disso, a Volks foi multada em 20 bilhões de dólares, ou quase um terço do valor da fábrica que é  de 54 bilhões de dólares.

Que sirva de exemplo por aqui. Mas tudo isso lava um pouco a alma do brasileiro que se sente pequeno devido as notícias de corrupção, e de repente descobre que os “nobres habitantes do norte europeu” também são tentados pelo ato de enganar às massas. E se tudo caminhar como caminham os atos da corrupção? Talvez este escândalo seja apenas a ponta de um gigantesco iceberg alemão.

Que a cabeça de Chico não se acostume, e a cuca de Fritz sinta na pele o que é a vergonha de ser envergonhado. E viva “Tolypeutes tricinctus”, o Fuleco, o tatu bola mascote brasileiro. Mas Herbie, o fusca que quis falar, deve estar se revirando na oficina  onde o enterraram.

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